Página de Walter Eudes

30/11/2009

100 ANOS DO GÊNIO JOSUÉ

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 03:37

Ao entrarmos em contato coma obra de Josué de Castro surge-nos ao tempo de um encantamento e orgulho, uma forte melancolia. Orgulho por ser este cientista aclamado no mundo inteiro, um brasileiro, nordestino, pernambucano. Natural de uma das zonas de subdesenvolvimento do planeta: a América Latina, cheia de famintos, de gente raquítica, crianças buchudas e de canelas finas, dos sertões de seca do Nordeste, dos homens-caranguejo subnutridos… Portanto, Josué, um erudito que fez de seu talento, instrumento de retratar seu mundo, sua gente sofrida, sofrimento secular, sem proteínas suficientes, nem vitaminas, nem minerais e daí doenças, doenças da fome que dizimam e continuam dizimando milhões de seres humanos a cada era. Orgulho de ter como conterrâneo um estudioso que puxou o véu da hipocrisia humana num dos seus temas mais cruéis, que sempre evitamos, mas não há mais razão pra evitar: a FOME e fome coletiva, de grandes contingentes populacionais, fome que mata, deforma, adoece…
Encanta a obra do gênio pela sua lucidez e pelo teor rigorosíssimo de ciência. É obra objetiva que às vezes não queremos crer, mas está provado densamente que o descalabro da fome é evitável, que os altos poderes políticos das grandes nações desenvolvidas insistem em ignorar o tema, que há condições de se ter alimentos no planeta pra suprir bem as demandas nutricionais de toda população diariamente, que o poder econômico emperra as ações de combate à fome na sua gana de expansão e acumulação em detrimento da distribuição.
Então é inevitável a melancolia. Quando vemos hoje, em nossa geografia, a fome presente. Sem carecer de nos compadecermos com fomes de outros cantos, daqui mesmo, das metrópoles brasileiras com seus bolsões de miséria e desemprego, da área da mata açucareira a empobrecer o solo tropical com sua covarde monocultura secular, sem espaço pra roça de subsistência, gerando gente subnutrida ou faminta, dos campos de latifúndios criando gado pra exportação e as gentes destes mesmos campos sem acesso a estas mesmas carnes, migrando para as cidades para mendigar, passar fome, se criminalizar.
Mas há uma outra melancolia da qual padecemos juntos com a celebração dos 100 anos de nascimento de Josué de Castro, que nos toma a alma e nos leva a um estado de intensa tristeza aguda, tal qual a um faminto de comida. Ao tomarmos pé do legado e vida de Josué nos deparamos com uma verdade dolorosa sobre sua obra e sua pessoa: banidos! Desde 1964, até hoje, 2008 padecemos nós brasileiros de uma fome urgente: fome de Josué de Castro. No exílio talvez ele vislumbrasse que sua obra e sua pessoa voltassem a serem respeitadas em seu amado país como foi na França, Inglaterra, Itália, Estados Unidos, antiga Rússia, China, Japão, entre outros países. Sofremos ainda hoje deste descalabro inacreditável deste país imenso, belo e faminto: a obra de quem talvez tenha sido seu maior gênio está oculta. Nos remetamos a 1973, exílio de Josué na França: sua melancolia em ser banido é nossa melancolia hoje em ele não ser lido, não ser estudado, reverenciado e aplicado em seu próprio país. Resta saber até quando assistiremos a agonia de Josué, pois durará até que nossos governantes e instituições o resgatem e cesse assim este jejum que está nos consumindo há mais de 30 anos.

W.E. – 2008

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