Página de Walter Eudes

12/12/2009

Em torno da 2ª Conferência Estadual de Cultura de Pernambuco

Filed under: 1 — waltereudes @ 08:35

Achei estranho que no dia da Padroeira católica do Recife tivesse início a conferência, oito de dezembro. Melhor assim, cultura é supra-religião, que venham católicos, judeus, protestantes, umbandistas, ateus, etc. etc. Mas onde está o governador? Não o vi quando cheguei – bem depois dos trabalhos de abertura já estarem iniciados. Também não o vi em nenhum dos dias da conferência – por menor diluído pelos trabalhos do encontro. Fez falta o governador, mas não prejudicou o andamento de tudo. Estenda-se o comentário ao poder legislativo – há uma comissão da Assembléia que trata da cultura não???

Falas daqui, falas dali, gente a chegar, fila de credenciamento, amigos e amigas a se cumprimentarem, afagos de companheiros de um mesmo barco, tudo preparativo… Não se viu dificuldade alguma na recepção, na abertura do evento. Primeiro ponto positivo para a FUNDARPE e equipe organizadora. Ao início dos trabalhos do dia 09 pela manhã, uma certeza: pelo correr das águas, tem tudo pra dar certo esta 2ª Conferência Estadual de Cultura! Ao meu ver, em linhas gerais, deu certo! Aliás, certíssimo!

De pronto a formação de grupos de debates e estudos, a partir de temas e conteúdo proposto para discussão, o “fermento” da conferência, uma clareza a esta altura; “moçada!, que tal fazer política cultural!?”. Porque notava-se um ineditismo em conferências deste porte para a maioria dos presentes. Até mesmo a própria reunião que é a 2ª realizada em Pernambuco é novidade, ademais do diferencial de participação dos municípios: 183 desta contra menos de 50 da primeira. Pois bem, não é uma dinâmica em edificação? Muita gente tomou consciência deste caráter da vivência e adotou postura de construtor/construtora de todo o processo. Outras tantas gentes astutas e bem inteligentes, não desperdiçaram oportunidade e enriqueceram e muito seu cabedal de conceitos, estratégias, formulações acerca da cultura, da arte, de políticas culturais. No bojo, um constante esbarrar de pernambucanos de todo o estado, as vezes a se somarem,as vezes a se diferenciarem, sempre a afirmarem-se porém em suas bases  específicas regionais e todos com  um mesmo prisma: pernambucanidade. Traço este último inclusive que é mote de interessante projeto da FUNDARPE já em aplicação : Pernambuco Nação Cultural – uma espécie de “farinha boa que da certo com qualquer prato”, untando o estado de canto a outro (torçamos que dê certo este projeto e que venha a sedimentar-se em definitivo e em brevidade). E aí que se desenvolve toda uma conhecida dinâmica de conferência a grandes grupos: um texto base, concordâncias e discordâncias, debates, destaques, votação… qual o conteúdo a ser escrito, redigido, apresentado coletivamente aos poderes públicos constituídos? Cumpriu-se este objetivo.

Entre tanta gente, tantas histórias pessoais e histórias coletivas, me chama a atenção ao espectro larguíssimo de ideologias presentes e também do exercício das mesmas. A quem está habituado a este tipo de evento, que já percebeu o que é rentável e o que não é em uma conferência, gente que põe a práxis política em primazia ao arcabouço teórico e dogmático, não perdeu tempo apenas em devaneios utópicos e melhor ainda, pôs o ideário coletivo afirmado pela construção do texto fim da conferência, como uma referência a merecer: respeito, zelo, defesa, mas sem tomá-lo como fim em si  e por  si; na verdade, a por este arcabouço teórico, como um início a um tempo novo que também é tempo findo, algo que uma concepção linear de ação não referenda, é um término de uma jornada que se renova, que se auto-critica; daí um novo ciclo a se formar, com mais força ante a checagem de desperdícios, de erros e acertos, de virtudes, de glórias e insucessos, com consciência que é a práxis que é o momento maior da ação política toda. Pois bem, havia tanta gente consciente desta dimensão da conferência!! E por fazer opção de primazia à práxis em detrimento do utópico, do teórico, souberam potencializar os três dias de encontro a realizarem troca intensa de idéias, experienciais e a estabelecer elos de solidariedade e luta em conjunto no campo cultural. Este, considero o extremo da rentabilidade na leitura de um largo espectro de visões e experiências políticas do momento em pauta. Num intermédio, vemos gentes doadas à causa coletiva impulsionadas a lá estarem por acreditar numa transformação para melhor da realidade cultural e artística de suas bases regionais, gentes a estarem mais ainda por descobrirem que por construírem. Por que lhe é o momento de iniciação a um legado político sedimentado através de gerações de pernambucanos e brasileiros, legado fincado por esforços e doações de muita gente que quer francamente subverter a lógica do poder do Brasil, do NE, de PE: de individual a coletivo, onde as expressões de direção sejam pessoas que representam o poder bem mais que exerçam-no, representam um projeto de grande grupo de maioria e não interesses pessoais e/ou de grupos restritos de pessoas. E diga-se, gente que chega ao poder por conceitos altivos da natureza humana, quais sejam por exemplo, solidariedade, o doar-se a causa coletiva e sociais, a justiça, liberdade, o pacifismo, a caridade, o respeito e a tolerância às diferenças, o pacifismo, o carisma fraterno, etc… e aí a conquista do poder em detrimento da truculência, do capital financeiro, da violência, das armas. Cite-se gentes desta natureza, que estimulam tantas pessoas a “pensar por aí” a política, o Brasil, seu estado, sua região, cite-se um Betinho, um Luiz Inácio Lula da Silva, um Dom Helder,… ora, quantos não são as pessoas que ingressaram na história brasileira a partir deste prisma a cima citado? Que abdicam da truculência, de “todos os meios para chegar ao poder”? E que são referências vivas ou in memória para tanta gente que exerce a política de cada dia no Brasil e no mundo!? Pois esta forma de atuação na sociedade, na política, vem encontrar em Pernambuco, entre tanta gente, a expoência de uma Luciana Azevedo, um Roberto Peixe, uma Teca Carlos, uma Tarciana Portela, uma Bete D’Oxum.

Mas também haveria lá quem estivesse sem “um pingo” de confiança neste modelo de política! Notava-se em raríssima e quase totalmente desapercebidas pessoas uma total desconfiança com este projeto aprovado em Pernambuco e também no Brasil. Vez outra encontrava-se alguém que, apesar de não interferir no processo, que por sinal foi vivência aberta e irrestrita, anotava seus pareceres e observações sem conseguir disfarçar que não acreditava em nenhum pulsar sequer de veia daquilo tudo que acontecia. Pasme-se! Seria o natural que a sedimentação da forças ideológicas de esquerda no Brasil por vias democráticas fosse encarada como um fato histórico inquestionável! Mas ainda há que não aceita tal fato! Pasme-se!! Há grupos e pessoas individualmente que não concebem ações coletivas como a 2ª Conferência de Cultura de Pernambuco como um evento a somar positivamente à população artística pernambucana e à população em geral! O que ganham estas gentes a nos tomar como ingênuos, inúteis, despendiciosos e onerosos ao estado, à sociedade?

Por derradeiro, cito companheiros e companheiras que em anos de movimento, de militância, esgotaram-se em suas práticas e não foram felizes no exercício à ampla criatividade, pautando-se em postura, pensamentos e ações que ao longo de anos, décadas findaram por se tornarem enfadonhas a si mesmo que dirá aos outros!? Referendam todo o processo coletivo, os valores libertários e democráticos de pensamentos e ações mas ante a posição de seus ostracionismos políticos, sem inclusive uma vivência de práxis, sem uma renovação e reformulação de convivência e debate políticos, sem acumularem temporadas em suas bases,  nada lhes agrada, nem mesmo a avalanche de gente nova do agreste e sertão em especial que vieram se somar a estes companheiros e companheiras. Tomaram a conferência por infrutífera, vã. Urge amparo a tanta gente aguerrida que necessita de oportunidade e perspectivas em reciclarem-se!

Por fim, cite-se que, desta prática de fazer política, misturando os que anseiam ver o potencial cultural e artístico de suas bases reconhecidos, desabrochados, junto aos que em algum momento da vida foram injustiçados, sofreram abuso de poder concentrado e centralizado, junto aos que acreditam que Pernambuco dá certo, mais uma conclusão: quantas falhas e erros não há numa conferência como esta? Quantos descaminhos e insucessos? mas é ainda a forma mais respeitável e avançada de se fazer política atualmente, independente de ser onerosa, cansativa, conflitante. Tentou-se e vem se tentando construir nova forma de gestão pública diferente do que se acostumou a praticar no Brasil, no Nordeste, em Pernambuco. Ao menos (e é mérito grandioso!), vem-se tentando construir esta nova forma de exercício do poder político. Parece mesmo que irão se recolher a frustração, ao fracasso e ao insucesso, ao menos por um tempo, as formas de tirania, de manditismo, de poder pessoal, ditaduras, escravismos, formas de exploração humana,… ao menos por um tempo traça-se uma perspectiva de ação coletiva como influente na vida política-econômica-social de um país, de uma região…

Pernambuco venceu a batalha! Nos preparemos para que o Brasil o imite. Força a todos os delegados e delegadas eleitos à Conferência Nacional de Cultura. Vosso papel na história presente já está definido, assim mostrou a 2ª CEC-PE, cabe a vós repetir e refletir Pernambuco no Brasil. Força!

Por: Walter Eudes – comunicador social pernambucano, artista audiovisual, poeta – participou da conferência estadual de cultura de Pernambuco na qualidade de observador. Recife, 11 de dezembro de 2009

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