Página de Walter Eudes

29/03/2010

Pe Luiz Cecchin morre após grave estado de saúde

Filed under: 1 — waltereudes @ 00:59

Surpreendeu a toda população Limoeiro(70km de Recife- PE – Brasil) o agravamento da doença de que sofreu o padre Luiz. Estava ele em casa de familiares na Itália, região do Veneto. Desta viagem que fez tantas vezes na vida, esta de certo era a mais apreensiva quanto a seu retorno. Segundo Alderico Serafim, assessor especial de Padre Luiz, que estava também no Veneto, a situação de saúde era gravíssima e de difícil restabelecimento. Pe Luiz ao ir a Itália há pouco mais de um mês fez reserva de volta para o Brasil, para Limoeiro, agendada para o mês de maio. Mas este retorno não se deu em vida devido o agravamento da doença….

De uma vida pessoal reservada, contrastando ao profissional expansivo, caloroso, solícito, Pe Luiz desdenhou em um leito aos 85 anos de idade, tendo conseguido se tornar um exemplo inquestionável de bom cristão, de pessoa humana, para o Brasil, para Limoeiro e para Itália, para o Veneto. Por levar a cabo um franciscanismo moderno, recebeu dos limoeirense o adjetivo de santo. De visão empreendedora, fez da filantropia um intercâmbio de culturas e países onde o desejo e a possibilidade de ajudar financeiramente de muitos venezianos era acolhida pela necessidade material de tantos e tantas limoeirenses. Superou o conceito de clérigo sacerdotal tradicional, de puro condutor de almas, confessor, de “padre de igreja” e foi às ruas, aos campos de Limoeiro para atuar auxiliando a quem encontrasse pelo caminho. Em 1969, em Limoeiro, fundou o Centro de Formação de Menores, sua obra de maior solidez e expressão sócio-filantrópica. Este centro, que tem principalmente creches, escola à crianças e cursos profissionalizantes à adolescentes de ambos os sexos, é praticamente mantido mediante recursos financeiros da região do Veneto, Itália, a região natal, de infância, adolescência e juventude de Luiz Cecchin. Não raro, não raro mesmo é encontrar em Limoeiro e em Pernambuco, pessoas que se estabeleceram profissionalmente sob principal base no Centro de Formação. Também inúmeras pessoas e famílias que tiveram alguma benfeitoria lhes destinadas por intermédio de Pe. Luiz. Incansável batalhador da minimização de dificuldades sociais e econômicas da população limoeirense, Pe. Luiz é também forte referência religiosa, seja à comunidade católica local, seja à população como um todo, obtendo respeito e admiração por todos os líderes religiosos das diversas estruturas teológicas fincadas em Limoeiro e de base na brasilidade. Nunca abriu mão de exercer suas funções sacerdotais e foi padre ativo à sua comunidade, celebrando missas, aplicando sacramentos, confessando, aconselhando, etc. Também, durante toda sua estada brasileira, nunca escondeu seu amor e predileção à Itália, à sua terra natal, a toma-la como referência de exemplos positivos e negativos quanto à questões brasileiras, a visita-la sempre com uma alegria e orgulho bem visíveis, a manter sua postura mais italiana que brasileira, ou mesmo ítalo-brasileira. Esta sua postura de forte italianismo, resultou a muitos limoeirenses uma forte aproximação com a cultura Italiana, coisa que está ainda por se desdobrar…

Mas diga-se ainda de dezenas e dezenas de Italianos e/ou alemães que visitaram o centro de Formação de Menores durante décadas, a fim de conhecer esta instituição e os “afilhados” que da Europa ajudavam com quantia financeira mensal (espécie de bolsa de estudos). Gentes que transitam pela comunidade limoeirense por dias, às vezes poucos meses, homens e mulheres, muitas vezes em dupla ou em grupos de 7, 8, 10 pessoas, mais vezes da Itália, porém várias vezes oriundas da Alemanha a estabelecerem elo com o Brasil, com os trópicos a partir de Limoeiro-PE. Algumas vezes estudantes em formação de curso, geralmente de Serviço Social, seja na Itália ou Alemanha, e cumprindo grade curricular aqui aportam por alguns meses, resultando hoje ser Limoeiro uma cidade e uma gente bem constituída de italianismos e gernamismos, muito viver e pensar destas partes da Europa que ainda pulsam de forma inconsciente nas pessoas da localidade. Por outro lado gentes d’Europa que cristalizam referências de brasilidade por toda a vida a partir de Limoeiro, por consequencia do trabalho de Pe. Luiz

A obra de Pe Luiz, se assinalada resulta numa impressionante vida de muito trabalho e muitas realizações. É atuação digna de sérios estudos e levantamento de suas obras a fim de que se registre à posteridade que é possível atuar em rincões periféricos do ocidente de forma grandiosa, com altíssimo grau civilizatório, praticando melhorias gerais no dia-a-dia de uma população.

Limoeiro prepara-se para se despedir de quem foi um dos maiores vultos de toda sua história desde seus primórdios há pouco mais de três séculos. A jovialidade brasileira, tendo a feliz característica de festivo acolhimento aos estrangeiros, convidou Luiz Cecchin a tornar-se um típico pernambucano e este assim se fez. Tal que há poucos meses, recebeu homenagem especial e solene em grande estilo da Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco, quando foi agraciado com o título de cidadão pernambucano e, num misto de forte emoção em que se encontrava, não escondia certo constrangimento de vera modesta à solenidade afirmando que “não precisava, já sou um pernambucano!”.

Deus nos ajude a interpretar e honrar a presença desta impressionante criatura humana entre nós!!

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18/03/2010

Porque estamos fazendo história…

Filed under: 1 — waltereudes @ 04:25

Não há luta coletiva que não resulte em transformação social. No âmbito das lutas libertárias os esforços às vezes transpassam gerações até a conquista sublime, a vitória almejada. Do nosso Brasil, do nosso Pernambuco, este ano de 2010 nos lembra entre muitas e muitas pautas uma em destaque: nossa herança escravista. Este ano celebra-se o centenário de morte de quem talvez tenha sido o maior vulto abolicionista da história brasileira: Joaquim Nabuco. Persona que dedicou-se aguerridamente em causa libertária, por questão coletiva, a uma pauta tri-secular. Hoje, lembrar este político, reverenciar sua trajetória de vida é honrar a benéfica herança política pernambucana e brasileira, bem como combater a maléfica herança da escravidão que ecoa em seqüelas ainda hoje. Façamos nossa parte, nós que dispomos de algum meio a reverenciar Nabuco, porque lembrar o passado em suas bonanças ou mazelas é também fazer história. Vislumbremos a possibilidade de um futuro melhor à nossa coletividade atravéz dos esforços no tempo presente com compreensão do passado. Reavivar a memória de Nabuco, bem como fazer leitura de sua luta na atualidade, especialmente interpretando os ecos da escravidão, reconhecendo as seqüelas da mesma, é nos pormos em contundentes e esperançosos esforços de um país, de uma gente liberta e respeitada em sua dignidade. O próprio Nabuco percebeu que a causa abolicionista não parava na burocracia assinada pela Imperatriz Regente. Notou ele que se estenderia a escravidão em conceitos, em relações sociais, em falta de oportunidade no país, em todos os âmbitos, a escravos e descendentes destes. Assinalou ainda que a única forma de reverter o percurso da escravidão seria como que re-conceitualizar  todos os organismos sociais que estiveram a aplica-la em suas estruturas, algumas por mais de três séculos. Entramos no século XXI com este tabu histórico cada vez mais escondido e intocável e também com estruturas sociais, institucionais, políticas, econômicas e culturais em nosso país com resquícios de pensamentos escravocratas. Rompemos há pouco mais de 100 anos os vergonhosos grilhões da escravidão. Quantos anos ainda nos faltam para rompermos outros grilhões, os da inconsciência? Salve Nabuco!

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