Página de Walter Eudes

12/05/2010

Cometário peça teatral – A FARSA…

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 06:56

Tive a grata satisfação de assistir a montagem da Farsa da Boa Preguiça, sob direção de Christina Streva na cidade de Limoeiro em Pernambuco (70 Km do Recife). Tomando conhecimento deste canal interativo entre público e realizadores, não pude me furtar em não registrar um comentário (mais ou menos) crítico…
Se há razão da arte em “divertir”, esta peça realiza tal função com maestria. É de fato divertidíssima. Impressiona a firmeza dos atores e atrizes em cena, a tranquilidade e veracidade de seus papeis. Mostra que há uma perspectiva boa de arte no Brasil, no Nordeste, quando a própria arte está em crise e consegue a equipe da Farsa… encenar coesamente, convenscentemente, provando uma exelente formação cênica. É de se parabenizar esta fonte dionisíaca. Porque são jovens atores, com média de idade talvez abaixo dos 30 (trinta) anos, daí uma satisfação a mais que envaidece a quem aprecia a peça: estrutura estética cênica bem articulada em um grupo teatral promissor. Se criatividade é condição sine-qua-non à uma boa obra de arte, aí na Farsa… esta dimensão da arte está bem explorada. Gratificantemente, curiosamente e belíssimamente, além de muito divertido, lá estão signos regionais do imaginário incosciente ou consciente do Nordeste, do Brasil…
Há uma nova tipologia cênica emergida no Brasil teatral há alguns anos: um clichê regionalista-chic que faz uso de elementos populares, de tipos populares, anedotas e ícones de um estrato social muitas vezes iletrado, provinciano e sedimentado geralmente no mundo rural (veja O Alto da Compadecida – filme ou peças, com os personagens e seus “tiques”, um figurino “amarronzado” tal qual paisagem de seca nordestina, da caatinga, um anedotário popular ou literário de um Ariano Suassuna; veja Lisbéla e o Prisioneiro – filme; veja inúmeras peças teatrais ou mesmo palcos musicais em shows de músicos diversos que elevam ao extrato da erudição da “alta arte” por exemplo, um simples adereço de palha como um cesto comum, uma panela de barro, o pano de chita, sandalhas de couro, um sotaque caricaturado pela sonoridade “arrastada” etc.). Um modismo de trazer do universo popular elementos ao erudito, que é comum na arte e que ainda encontra público no Brasil atual, especialmente Nordeste em relação a peças de tônica regionalista, em especial as peças de Ariano. Mas em A Farça… montada pelo Sertaoteatro, este modismo ou mesmo caricatura regionalista, ou ainda clichê teatral, vai está apenas citado, não lhe é base matriz. Daí, ao meu ver, a novidade e riqueza que enxergo nesta montagem: o grupo não desprezou esta tendência um tanto clicheresca do regionalismo, em especial o rural nordestino, mas não fez dele base de desenvolvimento da peça. Curiosamente, surpreendentemente e, repita-se, gratificantemente, há forte lastro de universo Pop, isso mesmo, de Pop-arte. Se você não teve oportunidade de ver a peça, considere um equilíbrio difícil, aliás muito difícil conseguido. Se viu a peça veja se não é de fato curioso e gratificante essa miscelânea do regional com o Pop. Mas não para por aí as surpresas desta montagem de A Farsa…, um aspecto meio que revolucionário vai está lá: é que o Sertaoteatro deixa fora de cena a hipocrisia estética, parecem assumir que tratar arte hoje em dia, fazer arte é discutir ou referendar, ou se encontrar no mundo dos mass mídia inevitavelmente; é sentir interferências intensas da mídia, porque ela mesma, a mídia, impera no referencial diversão, embora raramente culto; se se fala de encenação então, impossível desconsiderar a novela brasileira, no Brasil por exemplo. Pois que A Farsa… faz um joguete com jargões, personagens e saborosamente até mesmo vinhetas da mídia que embora hipocritamente queiram ignorar os dionisíacos mais puritanos, está no inconsciente coletivo da platéia, e também dos encenadores! Daí o “meio” revolucionário em assumir a realidade do repertório artístico e estético do público brasileiro que está impregnado de cultura “mass mídia” – diga-se que nem o mais erudito dos indivíduos, em sua maior puritanidade da excelência estética, em seu maior refino e apuramento artístico, entre Mozarts, Cortazars, James Joyces, Da Vincis, Monets e Goethes, não vai deixar de ter uma musiquinha, uma vinheta, um jargão de mídia martelando em sua mente de forma inconsciente, intrusa e irritante em momentos banais ou sublimes de seu dia-a-dia, ou mesmo, quem sabe, de forma prazerosa, escondidinho, lá está aquele ser erudito assobiado um comercial de sabonete ou automóvel…
Veja nesta montagem da Farsa… do Sertaoteatro o universo da cultura recente midiática encaixado com muito respeito ao texto de Ariano. E para não haver precipitação de quem não assistiu a peça, de citar “apelo de marketing” dado este recurso de referência à mídia, veja-se a trilha musical da peça, um aspecto à parte: são incrivelmente afinadíssimos! De uma melodia simples, encantadora, aliado a uma encenação acertada e que não tem nada a ver, em absoluto com TV, rádio ou nternet, é pura erudição!! Digo ser gratificante por fim, ver recursos de editais tão bem aplicados. A peça em pauta é toda montada por recursos de editais públicos. Parece ser uma boa proposta de se fazer arte, de se fazer teatro.
Se há aplauso justo, merece esta peça. Quem assiste vê a sinceridade do aplauso do público espectador: gratificado por se divertir cultamente. E aí outro aspecto impossível de ignorar: uma peça de rua, montada na rua, atrai pessoas que nunca viram teatro e simplesmente saem maravilhados!!
Força a todos e todas!
Parabéns e muito obrigado pelos momentos de erudição dionisíaca nordestina pós-moderna.
Abraços.
Walte Eudes
Comunicador Social pernambucano
abril/2010

(postado no Site da peça)

veja mais sobre o tema e sobre a peça em:

http://www.sertaoteatro.com.br

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