Página de Walter Eudes

02/07/2010

Seleção de futebol nacional

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 09:21

Futebol é no Brasil uma inquestionável felicidade. Um fenômeno que transcende e muito o aspecto primário de puro desporto, é até mesmo, sabemos, traço de identidade cultural. Ora, isto é comum a qualquer sociedade, a qualquer nação: um esporte vir a ser característica de identidade coletiva… Mas um estágio de excepcionalidade não parece ser atingido somente com a emoção e alegria inerente ao jogo. Excepcionalidade porque no Brasil é feriado nacional dia de jogo da seleção brasileira de futebol em copa do mundo. Daí merecer este fato uma atenção especial, onde possa-se debruçar o olhar objetivo de enfoques científicos diversos a perceber esta formação como um objeto de estudo capaz de elucidar tanto potencialidade como fragilidades do povo brasileiro em geral, na  sua atual configuração histórica-cultural. E vamos ver, junto a esta “paixão nacional” desdobramentos vários de comportamento, sendo um deles de chamar a atenção, uma vez ser perene nas últimas décadas e incrivelmente agora, na copa de 2010, estar descaradamente exacerbado: fala-se do ódio rival à Argentina. É curioso que se alimente um ódio tão fútil, não somente a um time adversário, mas a cultura de um país – diga-se, muitas vezes sem nada dela conhecer!. Novas gerações de torcedores brasileiros estão sendo criadas e algumas já foram criadas, com este rancor à Argentina. Fato sem dúvida que merece séria abordagem. Sugiro aqui, de forma superficial uma linha de reflexão que remota aos anos 60 e 70 em ambos países.  Havia por estas décadas, governos de um regime político ditatorial de cunho nacionalista e que parece ter o Brasil, antes da Argentina encontrado em sua seleção de futebol, motivo de referência à identidade nacional. Vitórias em copa do mundo de futebol, o tri-campeonato em 1970, mostraram ser o Brasil nação merecedora de credibilidade quanto às condições de vida de sua gente (país que gera atletas de tão bom nível, inclusive de extrema criatividade, merece sim respeito!). Ora, era um regime que precisava de fôlego para se manter, quando dividiu a opinião pública pelo fato de onerar a vida política coletiva com atos muito questionáveis, como por exemplo o fechamento do Congresso Nacional, a suspensão de eleições diretas, a censura, etc… Como não utilizar-se do sucesso da “canarinha” para impulsionar os projetos deste governo, para sustentabilizar sua credibilidade? “Todos juntos vamos, pra frente Brasil, salve a seleção!!” Viva a “Pátria de chuteiras”! Esta concessão dada pelo regime militar ao povo brasileiro de exercer sua liberdade nas ruas, de expressar sua alegria nata e sua festividade inerente  através do futebol, foi decisiva para vir a existir este fenômeno excepcional que é hoje e há algumas décadas jogo da seleção brasileira de futebol em copa de mundo. Em dias de estado de sítio, de vigilância constante a qualquer aglomeração de grande público, veio a calhar o interesse do regime militar no futebol da seleção .  Mas havia seleção de futebol em país que assemelhava-se as condições brasileiras: a própria! a da Argentina: conquistou campeonato mundial, sendo também sul-americana e tendo também na década de 70 (época do surgimento da grande rivalidade) um regime ditatorial em seu país. Ora, não só por ser ditadura, mas principalmente por ser regime nacionalista, de se ter por exemplo, um culto quase sacro aos símbolos nacionais, tal qual a bandeira nacional e suas cores. Como não reconhecer este fomento na inconsciência dos habitantes de um país? Um estímulo de “adoração” às “cores nacionais”… Mas na Argentina, o povo deste país, passa a adotar a sua seleção de futebol como identidade de cultura nacional de forma bem diferente do Brasil. Se no Brasil foi o tri-campeonato de 1970 que certificou a seleção de futebol como traço de formação e identidade cultural do país com a tônica nacionalista –“Eu te amo meu Brasil, eu te amo…”, na Argentina, o povo toma a seleção como traço de identidade coletiva por razão libertária – pelo menos é o que nos parece ser, do pouco que nos chega do que é e o que foi para os argentinos sua seleção de futebol. Ora, estava a ditadura militar naquele país em franca agonia. Após tanta tortura, assassinatos de dissidentes, após tanta pressão externa para o restabelecimento dos direitos democráticos no país, acha o comando maior militar de declarar guerra à Inglaterra, a guerra das Malvinas. Os Ingleses arrasavam os argentinos nos frontes de combate quando um outro “pelotão” arrasava os ingleses no futebol. Era copa do mundo e a seleção argentina vence a inglesa com gol de quem soltou um grito de alegria popular reprimido há anos: Maradona fez a Argentina tremer de euforia, suplantou os ingleses sem um tiro de fuzil se quer, mostrando que é possível se fazer forte no mundo, se fazer meritoso sem agir com atrocidades.

O regime ditatorial viria em pouco tempo a se extinguir. Certamente aquela confiança dada pelo esporte, gerando uma alegria incontível em massa, retomando as ruas com euforia, contribuiu para o fim dos militares no poder.

Estas similaridades e diferenças aqui apontadas de forma um tanto grosseira, não elucida, mas talvez ajude a entender melhor este ódio tão forte do brasileiro à Argentina quando o assunto é futebol. Diga-se ainda que nosso ônus/bônus de gigantismo geográfico no continente frente aos outros países, parece nos criar inconscientemente uma sensação de obrigatoriamente sermos os melhores e maiores da sul’américa a ponto de aumentar a rivalidade à Argentina quando eles conquistaram seu bi-campeonato. Sem dúvida, insisto no fato dos regimes nacionalistas que foram poder nos dois países e que deixavam pouco para suas populações se identificarem coletivamente em bloco, uma destas formas foi pelo esporte, sem ser o boxe, o beisebol, o basquete, o xadrez, o automobilismo ou outro qualquer, foi o futebol, o esporte mais apreciado no Brasil e também na Argentina. Some-se também a televisão, fato relativamente novo no mundo a justamente se popularizar pela época da ascensão destas duas seleções ao topo dos interesses nacionais e de seu povo. Por fim, diga-se que quem se deu bem nesta rivalidade, neste ódio um tanto mesquinho e fútil de Brasil à Argentina foi o Uruguai. Deixou de ser este país motivo de rancor e intolerância por parte dos brasileiros por ter vencido a final da copa de 1950 para o Brasil em pleno Maracanã, agora temos a Argentina para odiar. Fato este de 1950 ainda presente na inconsciência coletiva dos brasileiros mais maduros e que ainda despertam rancorosas frases desafetuosas de alguns quando se fala a palavra Uruguai.

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