Página de Walter Eudes

23/08/2010

Nabuco: homenagem e resgate

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 05:20

Joaquim Nabuco é diplomata, político, jurista e escritor brasileiro que obteve

reconhecimento em vida por sua dedicação à causa abolicionista no último país do planeta a extinguir a oficialização pelo estado da escravidão de humanos por humanos, em particular a escravidão a diversos povos africanos. Durou mais de 300 (trezentos) anos a escravidão brasileira e basicamente a pungência deste país nos períodos colonial e de reinados foi construído pelo braço escravo. A atual configuração do Brasil como uma das maiores potências econômicas do planeta deve muito aos escravos, os quais tem seus descendentes em ampla maioria, ainda alijados das benéficas deste país continente. Neste ano de 2010 homenageia-se Nabuco pelos 100 anos de sua morte e não deixa de ser oportunidade excelente de conhecer melhor a obra, luta e vida desta personalidade nascida no Recife e crescida sob a tônica das tradições de pernambucanidade. Em excelente seminário sobre o maior de todos os abolicionistas do Brasil, em 19 e 20 de agosto, a FUNDAJ mostrou que honrar a memória de Nabuco faz bem a todos nós e que crescemos em vários sentidos quando nos deparamos com uma personalidade como a do homenageado. Mas Nabuco merece além das homenagens ser compreendido, porque compreende-lo e compreender sua obra hoje é situar-se mais próximo à realidade brasileira e aí implementar uma socialização atendendo ao que pede as gentes deste país. É impossível se alcançar êxito e um bom termo em atuações diversas no Brasil de hoje, bem como trabalhar para o Brasil de amanhã acreditando que a escravidão não tenha deixado marcas e sequelas ainda não superadas! Como afirma o próprio Nabuco: “… enquanto a Nação não tiver consciência de que lhe é indispensável adaptar à liberdade cada um dos aparelhos do seu organismo de que a escravidão se apropriou, a obra desta irá por diante, mesmo que não haja mais escravos. ” Daí que estamos justamente reverenciando um vulto da história brasileira, mas precisamos  mesmo é vivencia-lo, admitirmos seu  vanguardismo à época em que se empenhou em vida e encontra-lo pulsante em nossos dias, vivíssimo nas ideias, atual e urgente. Numa época de democracia, onde é possível resgatarmos o que tiranias burras nos roubaram, cabe muito bem trazermos  esse pernambucano para o século XXI, ir mesmo contra a orientação de que  passado é sepulcro inerte, que lugar de herói é nos livros e calendário cívico. Particularmente vejo a grandiosidade de Nabuco muito atual, aliás, mais para o futuro do que o presente ainda impregnado de ecos censores, de falsas prudências alienantes. Arranquemos de uma vez este véu absurdo do passado, deixemos que ele, o passado, nos impreguine com suas bonanças e mazelas, não tenhamos medo de tudo, temos um Nabuco à nos orientar.

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UMA PIMENTA DO OUTRO MUNDO… (CONTO BREVE)

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 05:17

… e o sétimo dia foi só descanso! Na certa aquele repouso sonorizado por um ranger de rede e passarinhos por entre galhos, também um latido de um bom vira-lata e mais ao longe um mugido breve de qualquer vaca ou boi. Talvez uma ou duas moscas a lhe importunar, mas sem aborrecer-lhe naquele vai-e-vem sublime soprado por brisa suave daquela estação. E após bons minutos de apetite desperto, um impulso apusso da rede pra calçar as chinelas e ir almoçar.

E do cheiro trivial daquele secular e ancestral feijão, lhe saliva a boca a lembrar que lhe espera uma pimenta leve. Duas conchas de feijão e outras duas de caldo; uma colher de sopa da pimenta e…

… um transcender que lhe arrebata a outros cantos. Agora é um asceta oriental, na certa indiano, mas talvez de outras paragens milenares. É-lhe consultado sobre o existir por jovem aldeão. Senta o guru numa pedra a beira da estrada e por mais de hora narra ao jovem as desventuras e vicissitudes de Shiva, Krisna e Bramas. O jovem após ouvir o ensinamento, como em transe, dispara para sua casa há poucos metros dali e retorna com um prato caldolento de sopa nativa. O velho, sem nada falar, recebe o prato, reverencia o jovem com um leve aceno de cabeça e tira do bolso da túnica duas pimentas compridas. Parte uma e joga na sopa e a outra dá ao jovem dizendo: – fazes por mim que não tenho terras. Dá de novo a terra o que dela recebi!

E após solver a segunda colherada, seus olhos deslumbraram uma fina chuva tropical.

fim

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