Página de Walter Eudes

20/12/2011

Sucesso artístico e cultura regional

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 22:56

É pertinente perguntar-se como é que temos uma cultura específica, de um determinado espaço geográfico-político-econômico, com suas especifidades históricas e a sua produção não vem ser representativa de sua gente. Na verdade seus artistas – ao menos parte deles – estão “macaqueando” outros lugares, outras gentes e outras culturas, ainda, outros regionalismos. Ora, vão estar causando um mau maior que um bem aqueles que estão a produzir obras artísticas, por assim dizer, contrárias à coletividade que as fomenta – seja fomento da natural demanda de plateia, de uma coletividade que gera, mantém e cultiva imenso arcabouço cultural, seja mesmo do econômico quando fala-se de verba pública. Porque não vai haver de fato arte “deste lugar” e sim “daquele lugar”, embora feita “aqui”. Daí que a diretriz a ser vivenciada por órgãos incentivadores, patrocinadores de obras artísticas em geral deveriam fazer estes raciocínios simples: “ de que fala esta obra de arte?” “está condizente com a base econômica que a gera?” Numa condição de dificuldade em recursos econômicos à arte, à cultura é preciso rigor crítico ao que vem a ser “obra bem sucedida”, também a “trajetória de sucesso”, principalmente quando levamos em conta uma condição histórica cruelmente imposta a alguns centros produtores de cultura, como é o caso de Pernambuco, condição covardemente incutida em nossa inconsciência coletiva de “marginalizados culturalmente”. A cima de tudo, falsos vereditos que tem clara função de desvirtuar potenciais imensos de cultura e produção cultural. Porque se há lugar que crie um ritmo específico de música e dança, com complexidade de execução instrumental e de passo – O FREVO, se é neste lugar que existe dezenas de originais iguarias culinárias, se é berço de poetas, artistas plásticos, músicos, atores, uns já mortos outros vivos a preencher sua trajetória profissional com referência direta, assumida e notória em sua região, coletividade e cultura específica, não pode nem vai ser um mundo a precisar de “se libertar”, justo o contrário, pode ser, assim deseje-se um mundo a se envolver em definitivo como a um Vicente do Rego Monteiro, um Abelardo da Hora, um Aluízio Magalhães, um Manuel Bandeira, uma Luzilá Gonçalves, um Fernando Spencer, um maestro Spock. Mas não é bairrismo algum, porque há igualmente um Jorge Amado, com sua Bahia, um Guimarães Rosa com suas Minas Gerais, um Portinari com seu São Paulo, uma Raquel de Queiroz com seu Ceará e seu Rio de Janeiro. E também não é nenhum nacionalismo porque vai haver também um Glauber Rocha com seu Brasil começando da Bahia, de igual forma um Chico Buarque de um Brasil visto do Rio de Janeiro, na esteira de um Ary Lobo, Noel Rosa, ainda uma paraibana que vê um belíssimo Nordeste Brasileiro: Elba Ramalho, também um alagoano que vê também um Nordeste, Graciliano Ramos… Assim que o repertório de referência cultural de um artista, aquele repertório em que ele/ela vai buscar os elementos para compor seus trabalhos, são decisivos para a densidade da obra destes artistas e, curiosamente, podem não ser decisivos para o sucesso de seus trabalhos. Porque se Patativa do Assaré vai ter reconhecimento restrito de seu trabalho, quando um sucesso absoluto em sua ampla coletividade só pode ser atingindo in memoria, não pouco denso é sua obra. Ou em Augusto dos Anjos, que se torna décadas após vida bem sucedido, uma referência literária e um estrondoso sucesso, enquanto que em sua época vivo pouco foi notado. Mas de obras superficiais e de imenso sucesso está cheio nosso menu diário de produções artísticas… O leitor, a leitora pode tirar suas próprias conclusões pessoais! Portanto, há várias nuances no que vem a ser o sucesso. Onde uma delas pode ter o sacrifício do regional em detrimento do massificante e o artista ou grupo pode contagiar multidões de espectadores e arcar com o ônus de seu próprio alheamento cultural, quando repeliu justo o repertório e o arcabouço que foi e é força motriz para muitos grandes artistas: sua cultura base, da coletividade que o forjou que a forjou.

 OUT – 2011

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