Página de Walter Eudes

17/01/2012

3° Águas de Oxalá – uma crônica

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 06:02

Toda forma de preconceito é uma agressão ao outro e a si mesmo. Portanto, quando a comunidade limoeirense das religiões de cunho Afro-brasileiro vão às ruas para publicamente iniciarem seu Ano Litúrgico (“começa pela cerimônia da Água de Oxalá – lavagem dos objetos e purificação de todo as impurezas acumuladas durante um ano” – Roger Batide – As Américas Negras – 1967) é excelente oportunidade para muitos limoeirenses em esforçarem-se nesta superação individual e também coletiva: vencer o preconceito religioso. E vamos ver já há 3 anos, por parte dos praticantes do Candomblé um digníssimo respeito ao universo do “público”, da “coisa e instância pública”, também às “coletividades”, assim que entre cantos yorubás, trajes religiosos (de cor branca), indumentárias e instrumentos percussivos, entre outros, podemos ver sólido respeito à ordem social geral, em seus cânones político/jurídicos, em suas exigências a munícipes e nacionais. Exercer cidadania de fato, ser cidadão, cidadã em plenitude começa com este civilizado tom: reconhecer e respeitar o que está em voga na sociedade contemporânea, o que rege uma população em sua geografia através de seu Estado de Direito. Mas não só em âmbito vigente, também num historicismo estabelecido que à luz crítica, embora injusto não é ferido, provocado. Então que ficam as obrigações de quem religioso, religiosa seja e por bem queira vivencia-la e derivando deste grupo referencial, sem necessidade de cumprir ritos, forma-se um grande caldo de pessoas a proclamar liberdade em vários sentidos e igualdade nas diversidades. Resulta na liberdade cedida ao público em geral num momento ímpar de presenciar diversidade religiosa ao tempo de comportar-se em seu reportório mítico/espiritual diverso praticante ou idealizado. Paira-se pois, um conforto raro em vivenciar diferenças religiosas sem mínimo conflito (aspecto de justo reclame de brasilidade). Assim que um momento como as Águas de Oxalá que ocorreu em Limoeiro(PE) neste 15 de janeiro das 14hs as 21hs, com referência base em duas importantes Casas de Candomblés da cidade é prova cabal que não há impedimento maior para a convivência das diferenças, ou opções humanas e que está mais no exercício do respeito mútuo que no confronto direto, a superação da barbárie do preconceito.
Eventos desta natureza são convite claro a quem quer se confrontar consigo mesmo e constatar esse dado: “me cabe o respeito se o pratico”. Das lideranças religiosas, seus filhos e filhas de santos que exaustivamente fizeram um cortejo de procissão por quase dois quilômetros, entoando cantos, tocando atabaque e agogôs, dançando e festejando a vida, parece ser o reconhecimento e notória admiração do público leigo uma de suas principais recompensas. Tal qual sua ancestralidade de mesma base religiosa, em forte laço associativo, em esforços desmedidos (e desumanos) de trabalho, que fez base para criar este país que é hoje (2012) a 5° potência econômica do globo, poem-se este grupo de praticantes do candomblé, em intensa servidão a sua referência urbana/histórica a sua população de lida diária em, religiosamente e coletivamente vislumbrar um esperançoso futuro promissor livre de rancores, ódios e preconceitos que, se não extirpados, minimizados – um intuito claro de libertar muitas consciências e almas destes grilhões. Dificilmente houve como a alguém daquelas 2 ou 3 centenas de pessoas que presenciaram o cortejo da 3 Águas de Oxalá pudesse ficar indiferente, que não tenha olhado para si mesmo e se perguntado: “porque tanto preconceito e perseguição a este grupo a esta religião? Se não no presente, no outrora brasileiro?” Se ao leigo e-lhe muito estranho tudo aquilo que ocorre em específico e em especial nos Terreiros de Candomblé, não lhe é na alma, nem mesmo que seja em algum lugar recolhido da mesma ao menos, ou não se é brasileiro, não se é brasileira, porque não há quem possa reclamar brasilidade imaginando extinguir-lhe os africanismos ancestrais de si, seja em hábitos, fala, comida, na religiosidade. E, independente de credo religioso que se professe, mas com referência inda mínima ao espiritual, pode-se desejar, entre quereres de outras dádivas Que Oxalá nos conceda um ano farto de harmonia no que chamam de diferenças!!

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3 aguas de oxala.pdf

FOTO: divulgação

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07/01/2012

A grande mídia e seu grande público

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 11:59

Ainda há um atraso histórico que se observa a nível macro em relação a imprensa como um todo, em relação aos mass media (meios de comunicação de massa); num nível que não é apenas nas vizinhanças provincianas – distâncias que se percorre até mesmo de bicicleta: é a nível continental! – ou continentais se preferir, quando uma vez ser leitura ocidental esta aqui apresentada.

Será em vários aspectos e em várias nuances que observamos muitas lacunas no modo de fazer os “mass media”, no modo de fazer a imprensa. Ora, há vivências bem sucedidas de atuação neste campo social, onde vamos observar uma prática comunicativa de massa que esteja mais a serviço da construção contemporânea de sociedade e de modos de sociedade que a manutenção de equívocos do passado já comprovado danosos à coletividade (e a ampla coletividade).

Em tema tão extenso, vamos nos deter aqui a exemplificar um aspecto (dentre muitos) que será um dos conceitos deste setor social específico, presente em todas as épocas da humanidade e que se agiganta no século XX: a comunicação às massas, a grande público. Nos refutamos à noção de Quem Faz a Mídia – e aí percebemos a nível específico de Brasil (mas também em outros países, em outras culturas) um monopólio do quesito emissor, no item quem gera a notícia. E será para reduzido número de pessoas o exercício deste ato que já é reclamado por muita gente e grupos de todo lugar: também gerarem conteúdos.

Mas haverá ainda uma má formação de consciência coletiva neste quesito, e será esta noção equivocada de submissão irrestrita da população como um todo aos geradores de conteúdo que se tornam das principais justificativas de se protelar os atuais monopólios de comunicação: portanto, é sine-qua-non questionar, subverter, transformar, ou no melhor dos termos, desconstruir o atual conceito de mídia edificado há décadas de rádio, TV e cinema para vivenciarmos a noção que toda pessoa, todo grupo de pessoas, é capaz de gerar conteúdo midiático digno, desde que queira, necessite, e não dominando as técnicas dos meio, há legiões de profissionais da comunicação aptos a realizar tal tarefa.

Como e porque temos e não temos cinema

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 11:11

Há um contentamento intenso na arte pernambucana atualmente, também ocorre a nível nacional: a retomada do cinema. Foi difícil suportar uma sociedade de múltiplos interesses e múltiplos aspectos, como a sociedade brasileira, junto a específica pernambucana, sem cinema, sem fazer cinema próprio. Há décadas muitos setores econômicos, produtivos experimentaram uma modernização e até pós-modernização. Mas só há pouco, ao fim da primeira década no novo século, parece ter havido uma sinalização otimista desta força impressionante no dia a dia das populações mundiais: o cinema. De um prisma indústria, de outro arte. De um foco, expressão coletiva, de outro marca pessoal de grandes estrelas( atores, atrizes, diretores, diretoras, produtoras). Lazer ao certo, mas hoje, no século XXI e já há décadas, necessidade de indivíduos e grupos de indivíduos em exprimirem-se a outros grandes grupos e também a cada pessoa que busca no audiovisual oportunidade de enriquecer-se artística e culturalmente para melhor interagir no mundo cotidiano, de forma consciente, decidida, esclarecida e preferencialmente em cunho harmonioso, pacífico, solidário, construtivo e otimista. A este potencial inerente a qualquer arte e a qualquer obra de arte, vai juntar-se as demandas de sociabilidade do “ato expectador”, aquele de ir ao cinema; também o “projetar-se ao futuro” ou “projetar-se no futuro” – pois não há verdadeiro e verdadeira cineasta que não saiba que sua obra tem técnica de ser revista daqui há anos, décadas, quiçá séculos – portanto uma responsabilidade de afirmar ao futuro o perfil do presente. Ainda, e bastante requisitado hoje em dia: o cunho mercadológico, de força produtiva econômica, geradora de diversos empregos diretos e indiretos. A tudo some-se o lazer, precisão inerente ao ser humano. Então que “vivas!” e mais “vivas!” damos ao nosso cinema retomado. Ele de fato está acontecendo. Escolas específicas, inclusive de nível superior; editais públicos, festivais, reaberturas de salas com privilégio à produção regional e nacional… Porém, vai instaurar-se um paradoxo que mortifica o cinema brasileiro em geral e sem dúvida o cinema regional, em especial o pernambucano: é arte restrita. Onde ainda há muito o que se fazer em uma etapa decisiva de sua estrutura, que inclusive pode marcar toda uma tônica de conteúdo e tendência estética das produções: a distribuição e exibição. Parece haver um “break” neste momento final da obra cinematográfica. É uma incongruência com a própria estrutura da “arte mais democrática que há”, no dizer de alguns teóricos. Porque é o cinema “arte de massa”, de grande público que a usufrui de uma só vez, é inerente a sua técnica. Nos deparamos então com um “cinema para quem faz cinema” geralmente, e o grande público não usufrui de tanta obra belíssima produzida no país e no estado. Portanto, sem grande público, este cinema ainda não existe. Talvez coubesse protelar os gritos de vitória da retomada da 7ª arte para quando o grande público estivesse de fato a presencia-la, uma árdua luta que necessita de empenhos múltiplos de toda a sociedade.

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Gravação de audiovisual em Limoeiro(PE) – 2010    *    foto: João Paulo

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