Página de Walter Eudes

20/06/2013

Marranos e Malungos

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Dois termos não tanto conhecidos do vocabulário trivial de muitos dos leitores: de Marrano chamava-se a mouros e judeus ibéricos dos séculos XV ao XVII  que à força foram convertidos ao cristianismo, de Malungo cumprimentavam-se mutuamente os nativos africanos em língua própria, também por esta época e que tem por fiel tradução a palavra portuguesa companheiro. Africanos escravizados e ibéricos expatriados tiveram uma mesma sina e porto: colonizar as novas terras, um novo continente. O Nordeste Brasileiro foi dos setores geográficos mais promissores do Novo Mundo, figurou por mais de dois séculos como empresa agrícola rentável financeiramente, a fabricar e comercializar especiaria caríssima e muito procurada: o açúcar. Tudo economicamente girou em torno deste produto que encontrou na região solo propício e utilizou-se de mão de obra escrava para produzi-lo em larga escala e a baixo custo. Misturaram-se numa mesma geografia econômica então, estes grupos étnicos específicos e naturalmente intercambiaram seus saberes milenares, esperanças futuras e as dores de um sofrer em comum: o banzo. Do que é o resultado dessa miscigenação trazemos muito hoje no dia-a-dia do modo de ser e viver nordestino, pernambucano, brasileiro: não há campo desta cultura, de vida social que, somando-se aos antigos nativos, não contenha um pouco ou muito de Marrano e um pouco ou muito de Malungo (África e Península Ibérica). Entender o que há de específico em cada grupo etnicorracial descendente brasileiro pode ser uma atividade antropológica e histórica louvável, vez que vem a fortalecer genuínas culturas, tradições originais, mas por ser praticamente uma condição da brasilidade o miscigenar, é sempre inevitável a interação e encontro com outros grupos etnicosraciais. No Pernambuco, Nordeste e Brasil de hoje, das políticas públicas e/ou sociais em defesa  da identidade de específicos grupos etnicosraciais, talvez possa haver a percepção desta comum condição dos antigos Marranos e Malungos: viver e morrer fora do solo nativo, fato que ao certo contribuiu a promover entre estes, estreitos laços sócio-culturais. Deste foco antropológico, étnico e histórico aqui proposto há muitíssimo o que se abordar e, como bem sabe-se, muitas são as possibilidades comparativas dos grupos formadores da brasilidade, ou seja, múltiplas outras combinações podem ser propostas ao melhor entendimento da cultura regional, da cultura brasileira. O intercâmbio cultural iniciado no Brasil há cinco séculos parece ainda está em curso, sem ter-se esgotado, embora sedimentado. E de tão amplo que abarca – três continentes ao menos – é de fato o maior feito de miscigenação criado na história humana moderna, inclusive a forjar, como outras vezes dito, uma nova civilização nos trópicos.

Walter Eudes
Comunicador Social
waltereudes@gmail.com

08/06/2013

Novos Horizontes Artísticos

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 05:16

Quando do início da redemocratização recente política/administrativa brasileira, nos anos 80, quando a supressão do caráter de censura promovido pelo Estado Brasileiro à arte como um todo, um renascer é vislumbrado em todo país, um renascer para a livre expressão e à criatividade, pautando-se pelo potencial permissivo à arte. Assim, que os artistas no Brasil e o público podem retomar sua produção e interação com a livre criatividade e com a estética em geral. Entendendo que toda grande transformação política faz-se com a força popular, viram os artistas nos anos 80, a partir do movimento das “Diretas Já”, da chamada de uma nova Constituição e do fim do Estado conduzido por Junta Militar sem voto direto, a possibilidade da retomada do rumo da arte no Território e público. Pois que a reconstrução das bases para a retomada da pluralidade e diversidade artística que agora assistimos/vivenciamos ocorre com certeiros ânimos de quem percebe que uma Nação, uma gente não se desenvolve em hipótese alguma sem seus artistas das mais diversas áreas – não é somente o lastro infraestrutural que potencializa um país, não é somente seu parque industrial, sua agricultura e pecuária, o setor terciário, seus meios de comunicação, sua estrutura administrativa Estatal (no caso brasileiro, atualmente, Republica Democrática): entre outros aspectos significativos e entre muitos ramos do atuar social, deve haver espaço à arte, à criatividade aos artistas. Mas alcançar um nível contundente e altivo artístico após anos de repressão ao pensar/criar, pode às vezes ocorrer de forma tardia… e assim acontece em alguns locais no Brasil… No compreender de um “país continente”, não chegou em sincronia territorial, após a redemocratização, as benéficas da Arte à população. De forma que primários aspectos estéticos ainda estão em (re)construção em muitos lugares do imenso Brasil: é o que ocorre com o elementar conceito de Identidade Histórica e também com a Identidade Cultural: ambos são destituídos da merecida valorização em muitos lugares brasileiros, causando lamentáveis entraves ao desenvolvimento geral de uma sociedade, gerando uma baixa estima de indivíduos ou inteiros contingentes populacionais, visto o pouco que cultuam como Identidade e Historicismo, ao tempo que polvilham ao seu redor, inúmeros aspectos estéticos, personagens e períodos históricos e grande riqueza cultural que lhes são simplesmente ignorados. Some-se a este exemplo a ausência de espaços específicos à fluição artística, como museus, salões de plásticas, cinemas, auditórios, bibliotecas, atividades diversas como concursos à talentos, escolas e ateliês artísticos, etc. De forma que irão as sociedades esbarrarem-se em seus próprios intentos desenvolvimentistas quando ignoram aspectos artísticos e culturais de sua gente, assim mostra-nos as civilizações de sucesso na História: respeito e apoio à arte e aos artistas é condição necessária ao desenvolvimento econômico/humanístico de qualquer povo.    (MAIO/2013)

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