Página de Walter Eudes

27/08/2018

Ensaio crítico Ao “Café Literário”* – Limoeiro-PE

Filed under: Arquivo Geral — waltereudes @ 06:57

Por: Walter Eudes – membro participante deste grupo nos anos de 2013-2015

Não existe grupo de arte que possa ter tido evolução estética sem ter vivenciado estudos teóricos da arte com que lida. Aliás, grupo social nenhum vai conseguir um amadurecimento de suas ações ao público, à população, sem um constante investimento teórico/reflexivo. É natural erros, imaturidades, enganos e precipitações em grupos nascentes e de pouca experiência no que se propõe, mesmo que imbuído de boa fé e de ânimo produtivo a levar ao público boa vivência cultural – esse é o caso do grupo cultural “Café Literário” de Limoeiro, especialmente no seu evento mais conhecido: o “Agosto Literário”.

Esta proposta recebe aceitação do público a que se destina, retroalimentando a motivação de continuidade do grupo e do evento. Êxito aos organizadores e organizadoras do evento e também apoiadores. Mas além do caráter inaugural da proposta, a se apresentar na vivência exata de alcançar os níveis estéticos elevados da contemporaneidade que são possíveis de se alcançar, gerando uma consagração definitiva, é preciso o aprofundamento agudo dos conceitos sociais, culturais, econômicos, políticos, etc. que são levados ao palco através do recitar poético e das apresentações musicais.

Que não estará nenhum grupo trazendo nenhuma soma artística ao público em repetir conceitos firmados no cotidiano da população e que lhes exerce uma opressão clara… Não é interessante à arte crítica e de vanguarda o questionar de opressões nítidas do cotidiano comum??… Assim que o Café Literário quando recita construções poéticas machistas e misóginas está abrindo mão de um potencial que lhe é vez: 1- trabalhar a poesia ao público que lhe chegue, em conformidade à sua dignidade. 2 – vivenciar momento literário libertário, humanista e altivo ao público, justo dotando-lhe de claro diferencial de conduta frente ao cotidiano da sociedade claramente opressora em machismo e misoginia, por exemplo. 3 – contribuir para banir estas mazelas exemplificadas da formação de personalidade de novos e novas indivíduos ao tempo de questionar a má formação recebida por adultos. (perceba-se o Café Literário ter por três anos consecutivos levado à praça pública, poesias de notório prisma machista e misógino. * registro por empirismo deste autor).

A clara definição de suas propostas de vivência irá traçar a verdadeira identidade desse grupo (ou de outro qualquer). E como se dá esta formação identitária? Ora, com muita luta em seu interior e também com influências externas. É uma identidade que pode ser revista e aprimorada a posteriori, que pode inclusive regredir em grau estético (é o que não esperamos que ocorra com o “Café Literário”). De feita que percebemos este grupo de arte poética e musical limoeirense está numa grande e importante chamada de funções… Que a Arte exige um comprometimento constante, que quer do/da artista (também do ´produtor) uma definição de exata seus propósitos frente às demandas do público…

Uma primeira definição a qualquer grupo cultural é situar-se em apresentar mera recreação ao público ou de fato Arte. Outra questão logo a seguir, se de fato põe-se à Arte esse grupo, se é uma Arte de vanguarda ou de conformismo ao status quo… Acompanho com muita atenção o “Café Literário” de Limoeiro, visto haver no grupo artistas definidos em suas linguagens, bem como amplo potencial de outros membros em evoluir na Arte. Percebo porém, a repetição desnecessária de sua fase de inicialização onde não abarca um ampla temática de pontos de vista e conceitos que podem ou levar uma força estética ao público, reforçando suas expectativas de vida justa, ética e digna, caso faça critica social/histórica ou, na ausência de conceitos amplos, levar uma triste sensação de reforço de específicas condições postas da estrutura social, outrossim, havendo primazia a esta hipótese derradeira, o público terá ainda assim, vivenciado interação estética diferenciada de sua rotina.

Como dito, será no interior do grupo, nas suas lutas constitutivas que este trava em suas vivências, especialmente as dialéticas, que vai se moldando o perfil identitário hegemônico (aquele perfil que tem hegemonia, que domina). Será sempre uma construção coletiva esta afirmação – caso não, estaremos com interação de uma empreitada de um único indivíduo, com toda a sua percepção de um mundo e percepção de vida sendo imposta aos outros “membros” seguirem, não seria conceito de grupo artístico, é conceito de iniciativa individual com apoio de outras pessoas –movimento  também consagrado na cultura este formato, diga-se.

E de que forma se dão essas lutas de formação identitária? Ora, nas situações decisórias de diretrizes ao grupo. Em todas elas!! Quaisquer que sejam os encaminhamentos. Desde dia e horário de reuniões, periodicidade, temáticas de estudos/trabalhos; o quê discutir internamente e o quê não discutir; o quê levar ao público e o que não levar – alguns exemplos práticos estes. Além, claro, de definição de metodologia de trabalhos: se democrática participativa, se mandatária rotativa, se mandatária vitalícia, se solidária ampla, se individualista radical, se multidisciplinar, se interativa com outros grupos e áreas, se reclusa a seus membros e área, se com abertura de expansão de membros, se fechada em formação…

Assim como outros grupos artísticos (ou de lazer, conforme defina sua prática) o “Café Literário” de Limoeiro vai resistindo à crise da Arte atual. Felizmente persiste em sua proposta (apesar de não tão clara, a nosso ver) de interação com o público limoeirense. Cabe à crítica, advinda de especialista ou leigos, teóricos ou público em geral, sugerir aspectos decisivos à definição identitária deste grupo, aspectos que aos seus participantes ainda não são de notória percepção (ou a alguns participantes). Esse retorno dado pelo público aos grupos culturais, ou mesmo a indivíduos em seus trabalhos “solo”, ainda é um exercício iniciante em Limoeiro-PE, dado nosso nível estético está ainda em patamar primário. Falta aos artistas esses pontos de vista que podem lhes auxiliar em suas elaborações futuras… (Aqui cumpre-se este propósito: enquanto público teorizado, de não devolver ao grupo apenas aplausos)

Outros aspectos podem ser esmiuçados sobre/ao “Café Literário” a partir de percepções primeiras do quê este grupo tem levado a palcos limoeirenses. Mas encerremos aqui estas observações que já se mostram farto material de reflexão. Continuaremos exercendo nosso papel construtivo da Arte local nesta ótica de observador crítico, visto estamos lidando com manifestação cultural de nosso repertório comum, de nossa geografia e urbanidade comum e em nossos espaços públicos em comum. Na ocasião, deixo aos membros diretores do “Café Literário” a repetida sugestão, já apresentada presencialmente diversas vezes de dedicação a estudos teóricos, a serem no mínimo a história da literatura ocidental com ênfase na brasileira e a teoria da literatura.

Walter Eudes 26/08/2018

* “Café Literário” é um grupo de produção de recitais poéticos e poéticos-musicais de Limoeiro que há mais de 5(cinco) anos realiza eventos abertos ao público e mantém reuniões periódicas (geralmente semanais) entre seus membros participantes. Teve fundação em 2012 (?) quando da criação do Conselho de Cultura de Limoeiro, tendo a cadeira da Literatura recebido a proposta/estímulo de reuniões periódicas para discutir sobre a área em Limoeiro, bem como realizar eventos. O grupo Café Literário conta com algumas dezenas de apresentações públicas, geralmente em praças da cidade de Limoeiro, inúmeras participações presenciais em eventos de Literatura de Pernambuco como ouvintes e já fez recepção de poetas e poetisas para recitais e palestras como o grupo da UBE Paulista e o poeta recifense nascido em Limoeiro Altair Paixão.

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